31 de Maio de 2017

Pará, sangrento Pará

Por Felipe Milanez *
Da Página do MST 

 

O golpe e a força política ruralista em Brasília mandaram uma carta branca para a pistolagem na Amazônia. Estamos vivendo o tempo da morte. E o massacre de nove homens e uma mulher em Pau D’Arco, na fazenda Santa Lúcia, no sul do Pará, traz de volta a memoria de tempos terríveis, do retorno do terror. As velhas chacinas do passado voltaram a ocorrer no Pará.

Foto: Cézar Magalhães

Mortes coletivas perpetradas por grupos de pistoleiros a mando de fazendeiros. Empreitadas da morte que são feitas como um filme de terror, com tortura, muitos tiros, crueldade, e são seguidas de festa, a celebração da vitória do latifúndio pela destruição do pobre, aventuras contadas com orgulho de caçador.

Tal como aconteceu em Colniza (MT), na chacina de nove trabalhadores na Gleba Taquaruçu do Norte, em 19 de abril, há dez anos eu descrevi na revista RollingStone, com base no depoimento de um pastor à policia civil, detalhes de como Pássaro Preto foi morto por pistoleiros, em 28 de agosto de 2006. José Roberto Sabino, o “Pássaro Preto”, estava rendido quando foi morto. Depois do crime, os pistoleiros (chamados lá de guachebas), entre eles um de nome “Polaquinho Matador”, foram beber cerveja, comer picanha e contar vantagem da crueldade desumana que recém haviam praticado.

No caso de Colniza, a ganância que justifica as mortes visa a venda ilegal da madeira. São as “madeiras de sangue”. Nesses assassinatos recentes no Pará, é a grilagem da terra. E o capital anda junto de um moralismo da violência: a ética do sucesso econômico é conjugada com as mortes dos pobres que permitiram ganhar dinheiro, tudo com altivez e orgulho psicopata. E quando teme-se perder a terra, o fazendeiro não quer perder a honra: manda matar. Na fazenda Santa Lúcia, há fortes indícios que associam o massacre a uma “vingança” associada com a defesa da terra grilada.

Nesses primeiros cinco meses do ano, já são pelo menos 36 mortes de defensores da terra no Brasil, sendo duas chacinas, em Colniza (MT) e em Pau D’Arco (PA). Para sempre esse ano de 2017 será lembrado. E no caso do Pará, onde já se sabia que um novo massacre poderia ocorrer, o governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), junto de seu aliado Michel Temer (PMDB), já tem o “Eldorado”, ou a “Curva do S”, para chamar de seu.

No Pará, há uma configuração histórica local que contribui para que, num momento de Estado de Exceção como vivemos, de paralisia da democracia e das instituições do Estado de Direito, a máquina de matar seja ligada. Uma carta branca de Brasília, como um ministério da (in)Justiça chefiado por um ruralista, a força política no congresso, a capacidade de anular o trabalho de instituições de controle, basta para dar inicio aos banhos de sangue.

Os movimentos sociais sacaram faz tempo, desde antes do golpe, que a  nuvem da morte estava se aproximando. Foi no fatídico 17 de abril de 2016, quando se completava 20 anos do massacre de Eldorado, que se consumou o golpe parlamentar na Câmara. Passado um ano, a coisa piorou. Nas celebrações que marcam a lembrança do Massacre, em 17 de abril deste ano, 2017, o clima estava tenso no Acampamento da Juventude Sem Terra, organizado pelo MST na “Curva do S”. A noite, carros passaram a noite dando tiros em direção ao acampamento. No dia do ato, que sempre ocorre de manhã, militantes perceberam a presença de pistoleiros portando armas, tentando se disfarçar no meio dos camponeses. Eram, ao menos, oito. Havia ainda alguns P2 tentando se disfarçar de camponeses, da polícia do Pará e, diziam, também da polícia federal.

Fazendeiros já colocaram para circular novas listas da morte, nomes que saem de encontros dos sindicatos rurais. Sobretudo circulam pelas mãos de fazendeiros violentos que vivem (e grilaram terras) entre Parauapebas, Curionópolis, Xinguara, São Felix do Xingu, Redenção, Tucumã e Canaã dos Carajás. O mercado da pistolagem também voltou a ficar aquecido, e apelidos de novos matadores circulando, sempre acompanhados do mito de destemidos profissionais, executores frios.

Pará, sempre sangrento no campo, a cada dia o espaço da morte e do terror se renova, se reconstrói. É o palco onde se encena o “Teatro da Crueldade”, como escreveu o Arnaud, cujo roteiro passa por Brasília e Belém. O espaço da morte no sul do Pará é o lugar mítico da violência desde a brutal execução/eliminação da Guerrilha do Araguaia, da guerra que veio depois contra posseiros nos anos 1970 e 1980, e as chacinas aterrorizantes de 1985 e 1986, como Chacina da Ubá, Chacina da Princeza, entre outras. Na metade da década de 1980, o Pará era um banho de sangue promovido por figuras como o mítico Sebastião da Teresona, notório pistoleiro da família Mutran, uma espécie de senhores feudais da castanha e que formaram grandes latifúndios de terras griladas com a floresta virou pasto. E novamente, com o moderno golpe midiático-parlamentar, está o Pará banhado de sangue com pelo menos 17 mortes nesse ano.

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