25 de julho de 2017

Camponês: guardião da agrobiodiversidade

Horacio Martins de Carvalho*

Apesar da sua importância na história contemporânea da humanidade, os camponeses contemporâneos são considerados pelas classes dominantes como cidadãos de segunda categoria. São rotulados como os pobres do campo. Portanto e supostamente, diferentes dos empresários capitalistas do agronegócio, estes sim reputados como os responsáveis pelo incremento da agricultura nacional, quiçá os ‘heróis nacionais’.

Não resta dúvida alguma que os camponeses ‘lutam contra a corrente’ da concepção de mundo hegemônica, esta reforçada pelas políticas públicas que ensaiam ajustar a reprodução social camponesa aos interesses de classe da burguesia agroindustrial, nacional e estrangeira.

O camponês, enquanto pequeno produtor ou produtor de base familiar, é valorizado pela concepção dominante na medida direta em que incorporar os modos de ser e de viver de um pequeno empresário capitalista ou tendente a tal. Uma outra hipótese como a da afirmação do camponês contemporâneo construindo sua autonomia relativa perante o capital foi ou tem sido descartada, seja do discurso dominante seja de setores do centro-esquerda político.

Portanto, em síntese, diversas mudanças no mundo da produção e no modo de ser e de viver camponês, seja pela inovação sugerida pela agroecologia como pela busca incessante de autonomia relativa perante o capital, tem sido percebida a partir de um olhar pautado pela racionalidade capitalista, como um esforço desnecessário tendo em vista que o próprio camponês era e é considerado como um povo sem destino, em fase de desagregação e desaparecimento. Ainda que os dados históricos e atuais desmintam essa assertiva, ela persiste ao se tornar ideologia e discurso hegemônicos. Como parte da subjetividade liberal-burguesa, empolga os governos nacionais e modelam as políticas públicas para a agricultura.

Essa concepção de mundo capitalista, essa forma unilateral e historicamente dominante de se conceber o progresso, trouxe para o contexto camponês elementos da lógica capitalista no campo, tais como:

  • a uniformização da produção e o monocultivo,
  • a intensificação sem limites da produtividade pela utilização de insumos de origem industrial,
  • a destruição da biodiversidade pela erosão genética na adoção das sementes transgênicas,
  • a poluição ambiental pelos agrotóxicos,
  • a subordinação indireta da gestão familiar camponesa de sua unidade de produção às orientações das empresas transnacionais de insumos e de comercialização agrícola.

Nesse contexto, a disputa pela terra e pelos territórios entre os capitalistas do agronegócio e os povos do campo como os camponeses, os indígenas, os quilombolas, os ribeirinhos e os extrativistas se torna, sob a perspectiva das classes dominantes e dos governos nacionais, um confronto entre a modernidade e a obsolescência. Esta falsa dicotomia oculta ou mascara não apenas a crescente exploração dos trabalhadores pelo capital como a expansão indiscriminada da apropriação privada da natureza, esta já considera pelos capitalistas apenas como um recurso e um objeto de negócio.

Ao considerar o camponês como o guardião da agrobiodiversidade levo em consideração o conjunto dialeticamente percebido entre a práxis das unidades de produção camponesas singulares tão diversas entre si e a reprodução social da qualidade excepcional que advém dessa totalidade de unidades singulares.

A base da dinâmica dessas mudanças/permanências está, por um lado, na compreensão camponesa de que a sua relação antrópica com a natureza deve ser harmônica na medida das suas possibilidades. E que a sua relação com seus pares camponeses e com o proletariado deve ser de solidariedade e cooperação. Por outro lado, sabem e reafirmam nas suas práxis que no âmbito da formação econômica e social capitalista sob a hegemonia do capital financeiro os camponeses estão dialeticamente em contradição econômica, política e ideológica com a empresa capitalista agrícola, com o seu modo de produção e com os seus valores éticos.

Para tanto praticam ou já se iniciam na práxis da agroecologia e de uma relação que se deseja mais próxima da harmonia entre homem-natureza. Alteram de maneira radical (indo às raízes da questão) não apenas a matriz e práticas de produção como incorporam mudanças que lhes são apropriadas nas suas práticas de consumo familiar e na sua concepção de mundo. Diria que apesar da truculência economia, política e ideológica da expansão capitalista no campo os camponeses permanecem capazes de se comportarem como guardiões da agrobiodiversidade.

 

*Este texto é uma compilação do artigo, que posse ser lido na íntegra aqui.

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